O sonho de ser jogador segue vivo nos Coelhos
- Entrelinhas
- 26 de abr. de 2019
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Atualizado: 17 de jun. de 2019

Por Elton Henrique
O sonho de ser jogador e a paixão pelo futebol fazem de Evinho um exemplo de cidadão. Hoje, com 34 anos de idade, o responsável pelo projeto social Milan dos Coelhos nasceu — em 23 de março de 1984 — com paralisia cerebral e por pouco não sobreviveu. "Ganhou vida" com seis meses e dez dias, mas passou cerca de 90 dias na incubadora sob os olhares dos pais e da equipe médica. A luta para se manter vivo resultou em um milagre. A emocionante história comove a comunidade onde reside, no bairro dos Coelhos, área central do Recife. “Infelizmente nasci com uma deficiência e não pude tentar virar atleta profissional. Desde pequeno assisto a futebol e a futsal. Quando completei 14 anos, decidi formar uma equipe. Meu sonho ajuda outras pessoas”, recorda Evinho, que completou o ensino médio e ainda pretende cursar Educação Física. Quando era adolescente, em 1998, fundou o projeto — que atualmente reúne cerca de 110 meninos entre seis e 17 anos de idade — e o time recebeu o nome de Milan dos Coelhos, em homenagem ao seu homônimo famoso da Itália, do qual Evinho é fã. Além disso, em alusão ao bairro, tem o Pernalonga como mascote. Ao todo são seis categorias (sub-7, sub-9, sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17). No dia 14 de abril, a equipe completou 20 anos.
“Tive a ideia junto com meu pai. O projeto foi criado para formar grandes atletas, futuros cidadãos e vários exemplos para nossa comunidade. A iniciativa chama a atenção dos pais, que acompanham os filhos e procuram saber se eles estão agindo bem”, conta Evinho.
O time resiste com a ajuda de parte das aposentadorias de seu Brivan Marques e dona Marluce Bonfim, pais de Evinho, o caçula dos quatro filhos do casal. Até 2014, o Milan dos Coelhos recebeu apoio da Prefeitura do Recife e chegou a fazer parte dos Círculos Populares de Esporte e Lazer da cidade mas há quatro anos não recebe mais incentivo. Como vive no aperto, qualquer contribuição é uma conquista.
“A dificuldade é muito grande porque não temos parceiros. Não cobramos dos pais dos meninos. É voluntário. Como moro com meus pais, ambos aposentados, não tenho direito à aposentadoria. Já tentei, mas não consegui. Quem puder doar chuteira e bola, agradeço. Tem menino que deixa de ir para o treino por conta de problema de material. Fico triste com isso. Muitas vezes, um tem de emprestar (o material) ao outro”, declara. Além de tirar da renda mensal de casa, dona Marluce Bonfim colabora de outras formas.
Quando pode, prepara merendas para a garotada e lava os coletes utilizados nos treinamentos diários. O amor de mãe pelos jovens que participam da equipe é retribuído com muito esforço. “Dou o máximo. Abracei a ideia do meu filho, que ama futebol. É a alegria da vida dele e para mim é uma felicidade. As crianças o tratam como pai e também são como se fossem meus filhos. Qualquer doação é válida, seja material ou água. São muitas categorias. Ficaria muito feliz se olhassem de perto o projeto. É algo muito delicado. Esperamos que, um dia, abracem a causa e ajudem com o mínimo”, diz dona Marluce.
Por falta de receita, o Milan dos Coelhos fica fora de alguns campeonatos. Não há condições de bancar o custo de inscrição e deslocamento. “Infelizmente, a gente não tem como pagar as taxas. Tudo é gasto, mas sempre ajudei desde novo. Somos queridos pela comunidade, que reconhece o nosso esforço e gosta da gente”, comenta seu Brivan Marques.
O fato de estar sempre sentado numa cadeira de rodas não impede que Evinho seja o técnico do time. Gesticulando apressadamente o seu braço esquerdo, passa orientações para os atletas. Amorosos, os garotos retribuem o carinho e destacam os ensinamentos recebidos do treinador, que é um espelho para eles.
“Todo dia aprendemos. Ele é um lutador, faz tudo pela a gente e não desiste. Meu primo me trouxe pra cá e estou aqui há quase cinco anos. Gosto muito de Evinho como treinador”, afirma Pedro Gabriel, que tem 10 anos de idade.
Para participar do projeto não adianta ser apenas um bom jogador. Antes de tudo, é preciso estar estudando. O comportamento, a disciplina e a responsabilidade falam mais alto que o futebol. “O mais importante é se interessar pelos estudos para vencer na vida. Todos os dias, tento fazer o melhor para ter sucesso”, comenta Elídio Alexandre, da categoria Sub-11.

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