Do berço para a vida
- Entrelinhas
- 14 de mai. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de mai. de 2019

Quando uma criança nasce, uma série de coisas são atribuídas a ela, desde a religião, comportamento e, claro, qual time irá torcer. Na minha família não foi muito diferente. Meu pai tem cinco irmãos. Dentre ele e seus irmãos, três torcem para o Sport Clube do Recife e os outros três torcem pelo Santa Cruz Futebol Clube, pelo fato de meu avô ser rubro-negro e minha avó, tricolor.
Meu pai faz parte da metade que torce pelo Santa Cruz, daqueles extremamente apaixonados e fiéis ao time. Então quando nasci logo fui atribuída ao Santa Cruz. Quando pequena, mesmo não entendendo muito sobre o funcionamento do esporte, sempre gostei de assistir aos jogos junto ao meu pai. Era uma festa a cada gol. “Tá lá!” É a expressão que ele sempre usa quando o Santa Cruz joga a bola dentro da rede. Por mais que fizesse sentido que “tá lá” significa que a bola “está lá no gol”, nunca entendi porque em vez disso ele simplesmente não gritava “gol”. Meu pai é tão apaixonado pelo Santa Cruz que quando passamos um tempo morando no Pará, ele torcia para um time tricolor do estado, apenas para não deixar de lado suas raízes.
Quando tinha por volta dos nove anos, me sentia irritada por ver meu pai levar o meu irmão mais velho, que na época tinha doze anos, para assistir aos jogos no Arruda e nunca me levar. Sempre ouvia as mesmas desculpas de que, quando crescesse mais um pouco e tivesse a mesma idade do meu irmão, ele me levaria, contudo não me conformava. As reclamações que fazia a cada partida que eles iam eram tantas que quando completei dez anos, finalmente meu pai me levou para a primeira partida que assisti no Arruda.
Eu, meu irmão, meu pai e minha mãe, que também resolveu torcer pelo Santa Cruz por causa do meu pai, fomos assistir à final do clássico pernambucano Santa Cruz vs Sport. Ficamos na parte das sociais e a sensação que tive ao estar num estádio pela primeira vez era de pura euforia. Ver tantos torcedores unidos, mesmo que antes de entrar no estádio, cantando, com seus uniformes e bandeiras, sons de tambores que mais parecia uma real preparação para um combate, causava muitas emoções a mim, que na época era apenas uma garota de dez anos tendo seu primeiro contato com aquele ambiente.
Dentro do estádio me senti pequena no meio daquela imensidão de pessoas ocupavam os assentos vermelhos, brancos e pretos. O Arruda tinha acabado de ser reformado, então, tudo estava belo ao meu ver. As mais peculiares fantasias eram vistas entre os torcedores, famílias e pessoas de todas as idades estavam presentes. Porém, o momento mais marcante foi o do gol. Os gritos de euforia eram tantos que, por ser pequena demais, agarrei-me a minha mãe um pouco assustada. Meu pai nos abraçava e gritava, abraçava pessoas que nem sequer conhecia, confetes, fogos, serpentinas eram soltadas e bandeiras sacudidas com fervor, sendo aquele o momento que percebi o quanto o futebol é capaz de trazer alegria as pessoas. Mesmo com classes, idades e sexos diferentes, o amor e a felicidade que todos sentiam naquele momento eram os mesmos. A partir dali, realmente me vi apaixonada pelo Santa Cruz e resolvi tê-lo como time do coração, não apenas por seguir as tradições que meu pai me atribuiu, mas sim porque a partir daquela primeira ida a um estádio, que é completamente diferente de vendo pela televisão, eu me senti conquistada.



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