Crônica Caça Rato
- Entrelinhas
- 17 de mai. de 2019
- 3 min de leitura

Por Elton Henrique
Quando estiver no terminal de Chão de Estrelas, pergunta onde é a minha casa que todo mundo explica". Explicação simples. Quem é esse? Flávio Caça-Rato. Vou até o local indicado por ele, encontro senhores reunidos numa mercearia de esquina e, sem pensar duas vezes, peço informação: "Como faço para chegar à residência de Caça?". Na mesma hora, um deles responde: "Pega a primeira à direita, segue em frente e logo depois você vai ver um muro preto todo de cerâmica". Agradeci rapidamente, fiz o percurso e deu certo. Foi até mais fácil achá-lo porque o atacante já estava me esperando no portão. Depois que falei que foi tranquilo encontrá-lo, vi o quanto o jogador é humilde e respeitado. Ele bem que poderia ter deixado a fama subir à cabeça na época do Santa Cruz, mas não abandonou a sua essência.
O Caça-Rato é raiz! Na comunidade em que foi criado, é chamado por outro apelido: Jojoca. A paixão da maioria da família o fez torcer para o Santa desde a infância. Ir aos jogos no Arruda escondido dos pais era uma das suas maiores diversões. Só não superava a de jogar bola. A história de Flávio Augusto do Nascimento renderia um curta-metragem. Nasceu na periferia. Superou dramas familiares. Um pai alcoólatra e a mãe empregada doméstica. Recebia um tratamento rude... infância problemática! Sequer imaginava ser jogador de futebol. Os dias duros o fizeram lutar por um sonho. E quase perdeu a vida por se envolver com a mulher de um traficante. Levou dois tiros numa festa na comunidade de Campina do Barreto. Um pegou na perna, enquanto o outro atingiu as costas. Por pouco não ficou tetraplégico.
As lembranças do passado não o envergonham. Depois de tanto sofrimento, ganhou a mídia positivamente. Quem diria que o “imortal” sairia dos campos de várzea para tornar-se herói do acesso do Santa Cruz à Série B em 2013? Foi o auge da carreira. E lembro muito bem, algo que considero como inesquecível, pois era um torcedor fanático e sempre marcava presença nas arquibancadas das Repúblicas Independentes do Arruda. Não gostava do futebol do jogador, mas no calor do momento gritava o nome de um dos ídolos do clube, assim como toda a imensa e apaixonada torcida coral: “Ah, é Caça-Rato!”. Um dos dias mais loucos foi na Ilha do Retiro, em 2012.
Estava lá, atrás do gol do placar, num aperto arretado, e vi in loco o corte desconcertante do “CR7” no goleiro Magrão, do Sport. Ainda teve a frieza para trocar de perna e finalizar de esquerda a bola no cantinho das redes. Minutos depois, foi expulso, mas acabou sendo o responsável pelo gol que deu o bicampeonato pernambucano aos tricolores. Mais um registro histórico. Agora, estou eu sentado frente a frente com o ídolo Caça-Rato na porta da sua casa. Carisma e espontaneidade, marcas registradas da personalidade do folclórico atacante, estavam bem ali na minha cara. Ao vivo. Escutei relatos emocionantes. Marcantes.
Enquanto conversávamos, suas duas crianças escutavam as palavras do pai. Os guris estavam com uma bola embaixo do braço e mesmo com o sol forte, às 15h, queriam fazer gol no campo de terra batida de Chão de Estrelas. Ele pediu para esperar. A secura dos pequenos era grande. Mas a dupla respeitou e acompanhou carinhosamente a entrevista. Educação e exemplo comovente de pai para filhos.



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