Atletas da modalidade BMX Race enfrentam dificuldades e sofrem descaso no Recife
- Entrelinhas
- 7 de jun. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de jun. de 2019
Por Alice Albuquerque
Um grid de largada com o pneu dianteiro descansando sobre o portão, uma pista feita de montanhas, saltos e curvas, medindo em torno de 240 a 390 metros de comprimento e em média 10 a 20 pés de largura. Com, no máximo, oito corredores na pista de cada vez. Assim é parte do esporte que teve início no final dos anos 60, na Califórnia, e veio para o Brasil no início de 1978, trazido pela fábrica de bicicletas Monark.
Na Califórnia, o BMX iniciou quando o motocross se tornou popular nos Estados Unidos. Já no Brasil, a primeira pista da América do Sul foi construída em São Paulo. O primeiro Campeonato Brasileiro de Bicicross foi realizado na mesma cidade, em Moema, no ano de 1984.
Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (ABRACICLO), o Brasil é o terceiro maior produtor de bicicleta do mundo, só perde para a China e Índia, e é o quinto maior consumidor de bike do mundo. Das pouco mais de 70 milhões de bicicletas estimadas no Brasil, apenas 5% são destinadas a modalidade de BMX, ou seja, 3,5 milhões de praticantes de Bicicross.
Mesmo sendo um esporte olímpico, ele não é reconhecido. Os atletas têm dificuldade para participar das competições a nível estadual, porque precisam ser federados, e a Federação está passando por problemas financeiros. Ainda assim, os atletas seguem persistindo e lutando para que, um dia, o sonho deles se torne realidade. O atleta Arthur Sá, de 26 anos, faz questão de ressaltar. “A gente está no game por amor, não é por grana, não é por nada. Tem gente que vem me perguntar quando vai ter campeonato e quanto eu ganho. Tenho até vergonha de dizer, sabe?”.
No esporte, há dificuldades até na Federação. O fundador da Federação Pernambucana de Bicicross (FPEBMX), Aroldo Tenório ficou desde a criação, em 1996, até 2005 à frente de tudo. Desde então, Vandré Vital, atual diretor, assumiu e seu mandato deveria ter acabado em 2009. Pela dificuldade de encontrar pessoas que assumam esse cargo, Vandré está como diretor até hoje e manteve o Campeonato Pernambucano, que acontece anualmente. Mas, este ano, ele está sendo realizado por uma associação de atletas, porque a Federação está focada na Copa Brasil, que acontecerá em agosto deste ano”.

Para participar do Campeonato Pernambucano, é necessário que tenha filiação à Federação Pernambucana de Bicicross (FPEBMX). O recadastramento é anual e também não é permitido mudar de categoria após o início dos campeonatos. O valor da filiação é de R$40,00, válido como inscrição da 1ª etapa e além dos documentos pessoais necessário, quem vai se filiar e competir precisa preencher uma ficha, que deve ser assinada pelo piloto (se for maior de 18 anos), pais ou responsáveis.
Os pilotos de outros estados podem competir em qualquer etapa do campeonato da FPEBMX, desde que apresentem o documento de filiação da Federação do seu estado ou Clube, só participarão do ranking final caso participem de no mínimo quatro etapas do campeonato. Outras informações podem ser encontradas no site www.fpebmx.blogspot.com.br.
Vandré Vital cita o esforço da entidade na tentativa de incentivar a modalidade: “a Federação promove o esporte dentro do estado, motivando os clubes a organizar as competições. Atualmente temos pistas em Recife, Camaragibe (Aldeia), Santa Cruz do Capibaribe, Abreu e Lima, Nossa Senhora do Ó. No Recife tem três pistas, mas apenas duas em atividade. A pista da Jaqueira e do Santana estão funcionando, a da Macaxeira está desativada porque surgiram vários problemas com a construtora que entregou a obra inacabada em 2014”.
Arthur Sá ainda reforça a não valorização do esporte na cidade. “Não tem apoio nenhum, é desvalorizado pela prefeitura. Se nós atletas não fizermos a manutenção, ficaremos sem andar na pista. A da Macaxeira está inacabada e não tem iluminação, a do Santana está boa, mas também não tem iluminação. Esses dias fui dar uma volta no Santana e tive que pegar uma pá e uma inchada no sol quente de manhã, para tentar andar à tarde. Principalmente em período de chuva, e a Prefeitura não disponibiliza nem uma lona para proteger a pista da água”, afirma.
Vandré relata parte da dificuldade de um dos atletas de Recife para conseguir algum apoio e alavancar a sua carreira e que às vezes a burocracia é tanta que muitos desistem do sonho.
“Matheus Henning é um atleta nosso que passou quatro anos para conseguir a Bolsa Atleta e este ano, com o fruto da persistência, ele conseguiu a bolsa e foi campeão Pan-americano. A maior dificuldade hoje está na falta de apoio, falta de assessoria técnica e burocrática. Os atletas geralmente são de classe média à baixa e, muitas vezes, não tem como custear tudo, não é nada fácil. Já perdemos muitos talentos por falta de apoio (patrocínio ou bolsa atleta). Para um atleta conseguir um patrocínio ou bolsa, ele tem que estar com os documentos em dia, mas são tantos papéis que muitas vezes eles acabam desistindo”, completa.

Comentários