A Razão de Ser do Futebol
- Entrelinhas
- 7 de jun. de 2019
- 3 min de leitura
Por Kelly Arruda
Era domingo e o sol recifense estava mais quente do que nunca. Junto à minha equipe de trabalho, fui até a comunidade do Alto Santa Terezinha, zona norte da capital pernambucana, para realizar algumas atividades acadêmicas em uma rádio comunitária local. Nem esperava o que estava por vir no campo das semifinais do Campeonato da Caixa D’água, mas já sabia que cobrir o torneio estava no nosso roteiro.
Na verdade, cheguei antes de todas as outras companheiras. Decidi me antecipar e sair cedinho para pegar uma carona com meu pai, no mesmo horário em que ele sai para mais um dia de trabalho estressante no táxi.
Cheguei. Me despedi do meu pai e ele me acompanhou com o olhar até que eu sumisse do seu campo de visão por entre o beco que dá acesso à rádio e ao campo da Caixa D’água. Às nove da manhã estava marcado o primeiro jogo. Eu já estava lá à espera da primeira partida, assim como muitas outras pessoas também estavam.
Saí da beira do campo. Fui tentar resolver algumas coisas do nosso projeto com Charles, o DJ da rádio comunitária e, nesse tempo, quem faltava do grupo de trabalho foi chegando. Começou o jogo. Vamos gravar. Não tinha percebido ainda a quantidade de pessoas que estavam lá para acompanhar a competição. Quando percebi de verdade, senti a força de um campeonato de várzea, que nunca tinha vivido em tanto tempo acompanhando e amando futebol. Também sou de comunidade, no meu bairro tem um campo igualzinho àquele. Aquilo que vi é a essência do futebol. É o futebol raiz, como dizem. É de onde Rivaldo saiu. É Futebol de várzea!
Tinha torcida organizada, assim como os clubes Favela, Vila Pascoal, Mocidade e Azulão também são organizados. Têm “presidentes” e são uniformizados. Não é qualquer colete que vai identificar os times. E posso dizer que identificação é a palavra do meu vocabulário para definir um campeonato de várzea. Define a origem do cidadão que é “escanteado” aos morros da cidade e o que ele representa na sociedade. Define orgulho e bairrismo. Define esperança. Esperança no esporte. Lazer. Cultura.

A linha lateral do campo nem dava para ver que existia, muito menos o bandeirinha, porque toda comunidade estava ao redor e dentro do campo. Tudo junto e misturado, torcendo junto e jogando junto. Havia rivalidade, normal do esporte. Mas tinha união e confraternização. Era um momento de celebrar, de reunir todo mundo para ver um jogo de futebol. Tinha simpatia, alegria e música e dança. Tinha figuras inusitadas, como uma moradora cujo animal de estimação era um sagui... na coleira e tudo.
Em Michael, nascido e crescido no bairro, vi sonhos e ouvi um pouco de sua trajetória para conseguir carreira como jogador de futebol; lembrei do meu irmão. Mesma história, mesmo sonhos e as mesmas dificuldades. Queria poder no futuro vê-lo em algum clube expressivo, realizado e com a mesma alegria no rosto de quando ele me falava sobre tudo que tinha passado.
Voltei para casa sentindo uma felicidade imensa, querendo dizer para todo mundo o que tinha vivido e de como aquela garotada da comunidade, os principais atores da minha razão de ter ido ali, me conquistou. Foi uma imersão na matriz do futebol brasileiro e tudo o que ele representa mundo afora. Carregamos esse simbolismo com força.



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